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O IGP-M reflete a realidade da inflação ou está contaminado com o debate político polarizado no Brasil?



Como ex-aluno de Mestrado da FGV, em São Paulo (SP), a EAESP/FGV (Escola de Administração de Empresas de São Paulo/Fundação Getúlio Vargas), algo de que me orgulho, tenho acompanhado, com tristeza o envolvimento da FGV, especialmente a FGV/RJ, em escândalos. Apenas para citar dois exemplos, o primeiro relatado em matéria do portal www.conjur.com.br, de 18/08/2020, que divulga que a FGV/RJ é acusada de ter cometido irregularidades na privatização do Banco do Estado do Rio (BERJ), que motivou ação de improbidade administrativa impetrada pelo Ministério Público pleiteando, inclusive, a destituição da diretoria da entidade. E o segundo exemplo, mencionado no portal www.folha.uol.com.br, de 29/04/2019, informa que a FGV é alvo de devassa por órgãos de investigação no Rio de Janeiro e que, também, foi alvo da operação Lava Jato e é investigada em cinco procedimentos do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e, segundo o referido portal, foi citada em depoimento do ex-Governador Sérgio Cabral ao juiz Marcelo Bretas, onde teria afirmado que estudos da instituição eram usados para referendar tecnicamente obras que envolviam propinas.

Além dessas notícias desairosas e preocupantes, recentemente, a FGV/RJ promoveu live com o potencial candidato à Presidência da República, Luciano Huck, sobre empreendedorismo, tema que ele próprio reconheceu no início da live não entender e apenas ter um programa de TV que mostra casos de empreendedores. Segundo o portal www.istoe.com.br, em matéria de 14/01/2021, a Rede Globo teria sido condenada a pagar indenização à manicure Vânia Ibraim de Oliveira por supostamente não ter recebido os prêmios conquistados em sua participação no quadro “Mandando Bem”, do programa Caldeirão do Huck. Eu participei do início da live e manifestei minha discordância quanto à sua realização, sob os auspícios da FGV, como se esta estivesse apoiando politicamente o potencial candidato e, como pude observar, nenhuma outra live foi realizada, com candidatos de outras correntes partidárias. Não que a realização de lives com outros candidatos fosse tornar essa atitude correta, mas pelo menos haveria um mínimo de isenção.

A FGV, conforme consta no art. 1º do seu Estatuto, é uma entidade de caráter técnico-científico e educativo, pessoa jurídica de direito privado, sem objetivo de lucro e de natureza filantrópica, Estatuto este registrado no Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas da Cidade do Rio de Janeiro e supervisionada pela Provedoria de Fundações, do Ministério Público do Estado, tratando, portanto, no meu entendimento, de fundação ou OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público).

No art. 2º do seu Estatuto menciona que sua missão é estimular o desenvolvimento nacional tendo por finalidade o exercício de várias atividades relacionadas no mesmo artigo, em seus dez incisos, dentre os quais eu não encontrei nenhum relacionado com a atividade político partidária, ao contrário, só encontrei atividades relacionadas com o estudo científico e acadêmico, o que era de se esperar.

Além de entristecido com algumas notícias como os exemplos que mencionei, noto que no exercício de suas atividades, a FGV tem se distanciado cada vez mais dos princípios acadêmicos que a tornaram entidade de referência no ensino e pesquisa no Brasil e no exterior e se enveredado por caminhos completamente alheios à sua missão e que podem corroer sua reputação.

Agora, eu levanto questionamentos que deixarei a cargo dos leitores refletirem e, se a FGV se dignar, a esclarecer, não a mim, mas à população brasileira.

Começarei mencionando que a FGV calcula, mensalmente, o IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna), instituído em 1944, com a finalidade de medir o comportamento dos preços em geral da economia brasileira. O IGP-DI é uma média aritmética do IPA (Índice de Preços no Atacado), com peso de 60%, do IPC (Índice de Preços ao Consumidor), ponderado em 30% e do INCC (Índice Nacional da Construção Civil), que representa 10%.

O IGP-DI abrange o período do dia primeiro ao último dia do mês e é divulgado por volta do dia 10 do mês seguinte, enquanto que o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado) contempla o período do dia 21 do mês anterior até o dia 20 do mês de referência e é divulgado no final do mês ou logo no primeiro dia útil do mês seguinte ao mês de referência.

O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), por sua vez, calculado mensalmente pelo IBGE é o índice oficial do Governo Federal, desde julho/1999, para medição das metas inflacionárias definidas pelo Conselho Monetário Nacional. “O Sistema Nacional de Preços ao Consumidor (SNIPC) efetua a produção contínua e sistemática de índices de preços ao consumidor tendo como unidade de coleta estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços, concessionária de serviços públicos e domicílios (para levantamento de aluguel e condomínio)” e “A população-objetivo do IPCA abrange as famílias com rendimentos mensais compreendidos entre 1 (hum) e 40 (quarenta) salários-mínimos, qualquer que seja a fonte de rendimentos, e residentes nas áreas urbanas das regiões (isso equivale a aproximadamente 90% das famílias brasileiras)”[1].

Por sua vez, o IPC (Índice de Preços ao Consumidor), instituído em fevereiro/1939, é calculado mensalmente pela USP/FIPE (Universidade de São Paulo/Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) e mede a variação de preços para o consumidor na cidade de São Paulo, nos gastos de quem ganha de um a vinte salários mínimos e os grupos de despesas de acordo com a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF)[2].

Dessa forma, temos três índices de instituições de reconhecida capacidade e competência técnica, que medem a inflação, com metodologias semelhantes, porém com abrangência e forma de coleta diferentes, mas que, devido ao rigor científico, não deveria produzir resultados muito discrepantes.

Assim, como se pode explicar que, enquanto o IPCA resultou em 4,31% no ano de 2019 e em 4,52% no ano de 2020, resultados semelhantes aos obtidos pelo IPC/FIPE que atingiu 4,38% em 2019 e 5,64% em 2020, o IGP-M resultou em 7,32% em 2019 e 23,14% em 2020?

Embora possam ter metodologias, formas de coleta e abrangência diferentes, a ciência estatística, se bem empregada, não permitiria grandes discrepâncias entre esses índices e, finalmente, o período de coleta dos preços é o mesmo e há congruência entre o IPCA/IBGE e o IPC/FIPE, então, como explicar a enorme discrepância com dos dois primeiros índices (IPCA e IPC) com o IGP-M? Com a palavra, a FGV/RJ.

Como ex-aluno da FGV, embora da EAESP em São Paulo e não da FGV no Rio de Janeiro, estou preocupado se essa conceituada instituição, que leva o nome de um grande estadista brasileiro, não está sendo utilizada para fins diferentes daqueles para as quais foi criada, de promover o ensino e a pesquisa científica e ampliar as fronteiras do conhecimento científico de seus alunos, e que ainda me orgulha por seu passado de bons serviços públicos.


Por outro lado, se por miopia de seus dirigentes, a instituição estiver influenciada por ideologias políticas, se desviando de seus objetivos e princípios e sendo objeto de manipulação em seus estudos e resultados, é preciso que o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, que supervisiona essa consagrada instituição de ensino, interfira para evitar que em breve a FGV seja transformada em uma instituição sem nenhuma credibilidade técnica.

[1] Informações extraídas do portal www.portalbrasil.net
[2] Informações extraídas do portal www.portalbrasil.net

Por Leonardo de Paula Longo
Administrador de Empresa e Consultor

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